História da urologia

História da Urologia da Renascença ao século XIX

 

 

 

I – Renascença

 

A História da Medicina revela-nos que desde a ANTIGUIDADE se acreditava que as doenças eram causadas por forças sobrenaturais e demônios, e, portanto, só poderiam ser curadas através de ritos mágicos. Durante a IDADE MÉDIA, período que precedeu a RENASCENÇA, a teologia impusera uma atmosfera de misticismo dogmático, e a Medicina, praticada essencialmente em ambientes monásticos, tinha muito pouco de científico... Baseando-se as práticas médicas em rezas, exorcismos, uso de amuletos com gravações sagradas ou relíquias de santos, aplicações de óleos sagrados... Enfim, elementos sobrenaturais e supersticiosos! Foi neste ambiente que nasceu e cresceu um movimento em que o pensamento procurou retomar a função crítica, e o Homem procurou aproximar-se da natureza.

 

 

 

Giorgio Vasari, artista florentino do século XVI, Arquiteto e Homem de Letras, chamou de renascimento a este período da História, em que se passaram importantes acontecimentos sociais, econômicos e culturais, e em que uma das principais forças foi o “retorno às prioridades culturais da Roma e da Grécia Antigas”. E foi assim que o século XVI se tornou o século dos anatomistas: a arte de dissecar, proibida durante séculos, revolucionou a Medicina, desempenhando a Arte um papel de relevo! Pode afirmar-se que a Arte e a Ciência estiveram mais unidas no Renascimento do que em qualquer outro período na História da Medicina. Formaram-se, entretanto agremiações de Humanistas empenhados em que a cultura se tornasse mais humana. Aprendeu-se o grego para redescobrir os textos originais e fez-se deles uma leitura crítica correta. O Homem voltou-se para a natureza e iniciou-se o método experimental.

 

A História da Urologia foi pobre durante este período, como o seria nos séculos XVII e XVIII, já que a especialidade só veio a ser reconhecida na Europa no século XIX. Mas houve Homens célebres que muito contribuíram direta ou indiretamente para o desenvolvimento da Medicina e da Cirurgia, quer pelos conhecimentos que trouxeram sobre a Anatomia e a Fisiologia do aparelho urinário, quer pelos conceitos

 

racionais que foram introduzindo no campo da Patologia e da Clínica. Antes, porém, de falarmos de alguns vultos da História da Medicina que deixaram o seu nome ligado à Urologia, um breve apontamento sobre aspectos particulares da Medicina no período da Renascença.

 

  

 

 

 

 

Grupos de Profissionais ligados à Medicina:

 

 

 

1 – MÉDICOS – estudavam na Universidade e obtinham a sua licenciatura ocupando social e profissionalmente uma posição de prestígio.

 

Diagnóstico – a escassez de meios semiológicos era notória, baseava-se na tomada do pulso, palpação abdominal, observação das urinas, vômitos ou fezes.

 

Tratamento – limitavam-se à prescrição de medicamentos (plantas, animais e minerais), sangrias, clisteres, dietas e exercícios físicos.

 

 

 

2 – CIRURGIÕES – estavam repartidos em três categorias:

 

 

 

1.ª categoria ou verdadeiros cirurgiões: adquiriam o treino cirúrgico fora das universidades, em hospitais, através de um treino direto professor/aluno. Eram considerados social e profissionalmente inferiores aos médicos (só no século XVIII a cirurgia se tornou respeitável!). Procediam ao tratamento de fraturas, feridas, abscessos, remoção de tumores, cirurgias plásticas.

 

 

 

2.ª categoria ou cirurgiões barbeiros: praticavam sangrias, aplicavam ventosas, faziam pequenos atos cirúrgicos.

 

 

 

3.ª categoria ou cirurgiões itinerantes: andavam de terra em terra, praticando litotomias, hérnias, cataratas, extraindo dentes.

 

 

 

3 – FARMACÊUTICOS – preparavam os medicamentos por indicação dos médicos. Houve sempre conflitos entre médicos e cirurgiões, entre cirurgiões e barbeiros, e entre médicos e farmacêuticos! Muitas leis e decretos foram publicados, como o célebre “Ato da União entre Cirurgiões e Barbeiros em  Londres”, outorgado por Henrique VIII no ano de 1540.

 

 

 

Algumas situações do foro Urológico

 

Gonorreia e Sífilis:

 

 

 

Durante a Renascença estas doenças aumentaram assustadoramente, trazidas pelos marinheiros nas suas viagens a outros continentes. Conhecidas desde sempre, julgava-se serem duas formas diferentes de uma mesma doença. Em nada se evoluiu durante a Renascença quanto à sua etiologia e tratamento: nas formas com compromisso uretral usavam-se irrigações com extratos de plantas, tendo na época sido muito vulgarizado o uso da turpentina; nas outras situações usavam-se as fumigações com mercúrio. Só no século XVIII Benjamin Bell diferenciou definitivamente as duas situações.

 

 

 

Carnosidades ou Carúnculas:

 

 

 

Este conceito foi proposto por Galeno e durante séculos foi considerada uma doença grave do lúmen da uretra, uma excrescência carnuda no colo da bexiga que provocava retenção de urinas. Os termos que melhor definiam o sofrimento dos doentes eram: disúria e estrangúria. Foram descritas diversas formas e o diagnóstico era habitualmente estabelecido pela passagem de cateteres (a prata e o cobre eram os materiais mais utilizados). O tratamento consistia em dilatações e em aplicações de substâncias emolientes ou cáusticas, através de sondas apropriadas. A teoria das carnosidades foi universalmente aceita e praticamente não houve progressos até ao século XVIII, quando Morgagni refutou estes conceitos e atribuiu à hiperplasia benigna da próstata a causa principal de muitas obstruções.

 

 

 

Intervenções Cirúrgicas:

 

 

 

A maior parte das vezes as intervenções eram realizadas porque o doente o exigia, face à extrema necessidade de aliviar o seu sofrimento; outras, contudo, obedeciam a práticas rituais.

 

 

 

Circuncisão – praticada no Egito desde 3400 anos antes de Cristo, era um ato ritual essencialmente ligado a aspectos religiosos.

 

Litotomia – considerada prática indigna de um cirurgião, veio a tornar-se nos fins do século XVIII uma das mais importantes intervenções cirúrgicas.

 

Castração – praticada desde longa data era frequente entre os turcos e os chineses para manterem os haréns “protegidos”. Na Idade Média, com a construção das grandes catedrais, foi prática corrente para obter vozes “finas” mais potentes, uma vez que às mulheres era vedado cantar nas igrejas.

 

Hidrocele/Varicocele – eram praticadas com técnicas que, muitas vezes, levavam à atrofia testicular.

 

A terapêutica esclerosante do hidrocele também era uma prática corrente: em Londres, o vinho do

 

Porto chegou a ser um dos agentes utilizados!

 

Lombotomia – a sua prática era tão rara que pode afirmar-se que cada uma fazia história! Era habitualmente feita para drenar abscessos, a maior parte das vezes como complicação de litíase. Um exemplo classicamente referido é o de Cardan, que no séc. XVI drenou um abscesso e extraiu dezoito cálculos.

 

 

 

Personalidades Médicas famosas na Renascença:

 

 

 

Leonardo da Vinci (1452-1519):

 

Foi o Homem mais versátil que jamais existiu (escritor, filósofo, pintor, escultor, arquiteto, músico, matemático, cientista, químico, metalurgista, biologista, botânico, engenheiro hidráulico e mecânico, inventor).  No campo da Urologia fez a descrição completa dos rins, bexiga e uretra, embora tenha manifestado certa confusão entre os mecanismos da função vesical e da ejaculação. Identificou os vasos eréteis, mas não fez referência à próstata.

 

 

 

Paracelso (1493-1541):

 

Estabeleceu importantes esquemas terapêuticos, como o uso do mercúrio na sífilis. Praticou Medicina e Cirurgia, insistindo sempre na necessidade de uma observação minuciosa dos doentes, e na valorização dos seus sintomas.

 

 

 

Jean Fernel (1497-1588):

 

Foi o primeiro a sugerir que a sífilis e a gonorreia eram doenças diferentes, embora tivessem a mesma via de transmissão. Escreveu na altura uma obra magistral “A Universal Medicine”, em que dividia o estudo da Medicina em três áreas: Fisiologia (funcionamento normal do corpo), Patologia (funcionamento anormal do corpo) e Terapia (o que pode resolver a anormalidade).

 

Andrea Vesálio (1514-1572):

 

Em 1538 publicou “Tabulae Anatomicae” que contém a primeira ilustração da próstata – a que chamou Corpus Glandulosum, embora o desenho fosse o de uma próstata bífida de cão. Em 1543 publicou “De Humanis Corporis Fabricae”, grandioso tratado de Anatomia, verdadeiro monumento de observação e de gênio. Nele descreve o trato urogenital com toda a minúcia e exatidão, nomeadamente a estrutura e os rudimentos da fisiologia do rim, cometendo no entanto o erro de considerar o rim direito situado numa posição mais alta que o esquerdo. Foi o primeiro a considerar a participação da próstata na gonorreia e o primeiro a assinalar a fibrose dos corpos cavernosos. Defendeu que a Cirurgia não devia estar entregue a barbeiros, afirmando nomeadamente: “A Cirurgia, essa arte divina, deixou-se espoliar por obscuros práticos equiparados a servos...” e “...os estudantes não devem sentir-se humilhados por serem cirurgiões, para que não se desvirtue a Medicina em prejuízo da Humanidade”.

 

 

 

Ambroise Paré (1510-1590):

 

Foi o cirurgião mais célebre da Renascença: apesar de ser só barbeiro/cirurgião a sua reputação foi tão grande que acabou por ser considerado o Pai da Cirurgia.

 

Em 1564 publicou a obra “10 Livros de Cirurgia”, em que inclui diversos temas urológicos,  nomeadamente:

 

– descrição da técnica de litotomia, apesar de a não ter praticado;

 

– descrição duma técnica cirúrgica para o de hidrocele, e da transiluminação no seu diagnóstico;

 

– um capítulo sobre “esquentamentos, pedras e retenção”:

 

– descreveu a próstata e o seu possível envolvimento nas doenças urogenitais, embora atribuindo a sua responsabilidade a secreções malignas;

 

– descreveu a disposição da musculatura vesical no nível do colo, e o seu papel na abertura e encerramento do colo;

 

– manteve a defesa das carnosidades, seu papel nas dificuldades urinárias, atribuindo a causa à gonorreia;

 

– condenou a prática da castração, usada como atitude preventiva da gota, a lepra e de certas psicoses, pois, como afirmava: “... é preciso preservar cuidadosamente estes órgãos, pois guardam a paz dentro de casa!”

 

 

 

Carpi (1470-1550):

 

Chamou “Vasa Deferencia” aos deferentes.

 

 

 

Falópio (1532-1561):

 

Inventou um sistema de injetar os vasos sanguíneos do rim e estudou os túbulos renais.

 

 

 

Eustáquio (1520-1574):

 

Descobriu as suprarrenais e demonstrou que o rim direito era mais baixo que o rim esquerdo.

 

 

 

Francisco Diaz

 

Médico espanhol que publicou o primeiro tratado da Urologia de que há conhecimento em 1588, e fundou mais tarde em Madrid uma escola permanente para “O ensino e tratamento de condições urológicas”.

 

 

 

Martin Castelhanos de Maudes

 

Foi um famoso cirurgião espanhol, que se tornou o primeiro professor de Urologia em toda a História da Medicina: pode assim dizer-se que a Ciência Urológica apareceu em Espanha como especialidade três séculos mais cedo que no resto da Europa.

 

 

 

João Castelo Branco - Amatus Lusitanus

 

Famoso médico e cirurgião português que publicou as “Centúrias”: importante coleção de trabalhos em que descreveu aspectos da patologia e terapêutica das doenças do trato urinário.

 

 

 

II - SÉCULO XVII

 

 

 

Van Helmont (1577-1644)

 

Escreveu um livro sobre “Litiase e outras afecções urinárias” com os escassos meios de que a ciência médica dispunha, e inventou uma sonda mole, feita de couro fino e de cola, com uma curvatura que era dada por um mandril de osso de baleia ou um fio de cobre.

 

 

 

Bellini (1643-1704):

 

Foi professor de Anatomia em Pádua, e publicou, com 19 anos, “De Structura Renum”, obra em que descreveu a anatomia dos tubos excretores renais, ligando-lhes o seu nome. Estabeleceu que a filtração da urina ocorria a nível do córtex, e verificou que a mudança do cheiro e do sabor da urina se devia a variações nas proporções relativas da água e dos sólidos presentes.

 

 

 

Bartholin (1655-1738):

 

Em 1611 chamou próstata ao órgão que hoje conserva esse nome.

 

 

 

Conville:

 

Em 1639 descreveu a extracção duma volumosa próstata por via perineal.

 

 

 

Ruysh:

 

Em 1691 publicou o resultado de uma autópsia referente a um processo de tumores múltiplos da bexiga.

 

 

 

III – Século XVIII

 

 

 

Giovanni Battista Morgagni (1682-1771):

 

Foi professor em Pádua durante 50 anos e é considerado o Pai da Anatomia Patológica. Em 1761 publicou “De Sedibus Et Causis Morrem”, onde descreveu 500 situações observadas em autópsias, correlacionando os sintomas clínicos encontrados em vida com os achados necrópsicos. No campo da Urologia deve-se a Morgagni:

 

– rim: salientou a hipertrofia compensadora do rim são, em situações de doença renal do outro rim, e descreveu minuciosamente diferentes lesões renais, como o rim tuberculoso;

 

– estudou as anomalias do meato uretérico e dos trajetos intramurais do ureter como causa de refluxos;

 

– descreveu a bexiga trabeculada, estabelecendo um paralelismo com a hipertrofia cardíaca;

 

– chamou à hipertrofia do lobo médio da próstata Carúncula de Morgagni;

 

– estudou atentamente os retencionistas, acabando por refutar a teoria das carnosidades, e demonstrou o significado da hipertrofia da próstata como condição patológica;

 

– descreveu o foramen de Morgagni, ou fosseta navicular;

 

– defendeu que os cálculos vesicais podiam ter origem nos rins e descer à bexiga, ou que se podiam formar nela própria, e salientou a possibilidade de situações de litíase renal grave poderem evoluir silenciosamente, sem sintomas;

 

– praticou a primeira inseminação artificial em 1790, na mulher de um feirante que sofria de malformação peniana e impotência;

 

– finalmente defendeu a castração como meio de reduzir o volume da próstata em retencionistas.

 

 

 

François de la Peyronie (1678-1747):

 

Formado em Medicina e Cirurgia em Montpellier – o que era um desempenho raro na época – foi cirurgião de Luís XV, Chefe de Cirurgia do Reino, e o fundador da Sociedade Acadêmica Cirúrgica, mais tarde Academia Real de Cirurgia. Deve-se a ele a descrição rigorosa e pormenorizada da fibrose dos corpos cavernosos, pelo que a doença também é conhecida pelo seu nome.

 

 

 

John Hunter (1728-1793)

 

Foi um famoso cirurgião de Londres, cirurgia científica em Inglaterra. Tendo-se tornado um perito em anatomia na escola do seu irmão, William Hunter, continuou a estudar cirurgia com dois homens que dominaram a cirurgia em Inglaterra:

 

 

 

Percival Pott:

 

A quem se deve, entre outras coisas, o ter estabelecido ma relação do cancro do escroto dos limpa-chaminés com a exposição constante à fuligem;

 

 

 

William Cheselden:

 

Um perito na prática de Litotomia, que tinha a reputação de executá-la em menos de um minuto! Foi um pioneiro da Medicina Comparada, reunindo centenas de espécimes, que vieram a formar o Museu Hunteriano, hoje no Colégio dos Cirurgiões, em Londres. No campo da Urologia, apesar de persistir no erro de associar a gonorreia à sífilis, publicou um tratado em 1788 sobre doenças venéreas, em que descreveu com rigor os apertos da uretra, e realçou o papel da hipertrofia da próstata e o seu rebate sobre a bexiga e aparelho urinário superior.

 

 

 

Jean Louis Petit (1674-1770):

 

Eminente cirurgião francês, foi um dos mais veementes lutadores contra a teoria das carnosidades, salientando o papel da hiperplasia prostática. Idealizou um cateter de dupla curvatura, semelhante aos beniqués curvos que ainda hoje se usam.

 

 

 

Pierre Désault (1744-1795) e François Chopart (1743-1795):

 

Outros dois grandes nomes da Cirurgia Urológica: amigos chegados, hábeis médicos, cirurgiões e professores, acentuaram a importância de se reconsiderar o trato urinário como um todo e foram os primeiros a ter uma visão clara da doença urológica.

 

 

 

Cowper

 

Descreveu em 1702 as glândulas bulbo-uretrais, deixando-lhes ligado o seu nome.

 

 

 

Littré

 

Demonstrou a existência das glândulas uretrais, a

 

que ligou o seu nome.

 

 

 

Bertin

 

Descreveu em 1714 as porções de córtex entre as pirâmides, as colunas de Bertin, e descreveu as artérias arciformes do rim.

 

 

 

Benjamin Bell (1749-1806)

 

Diferenciou definitivamente a gonorreia da sífilis.

 

Fonte:

Antônio Requixa

Chefe de Serviço – Serviço de Urologia e Transplante do HUC